domingo, 1 de maio de 2011

"O maravilhoso mundo da mulher"

Pode ser a seu favor, vá lá, mas todo cuidado é pouco. Quando, no meio de uma conversa, alguém usar a perigosíssima expressão de mulher, desconfie. Tanto pode estar se referindo a um carro quanto a uma roupa, a um perfume ou uma profissão — em qualquer caso, o termo esconde, ainda que embalado em carinho e boas intenções, um preconceito horrendo. Imagine só: você vai comprar um carro, aquele momento importantíssimo na vida da mulher, e de repente é surpreendida com uma amável sugestão: “Por que não um bem bonitinho, pequenininho, branquinho, uma gracinha?”. A sucessão de diminutivos é o primeiro mau sinal. Por que você teria de escolher um carro assim? Sem falar que a existência de um carro de mulher significaria a possibilidade de um modelo oposto — o carro de homem. Que, pelo visto, deve ser bonitão, grandão, por aí. Mas do que é que nós estamos falando mesmo?

De preconceito, claro. Cada vez que seu namorado, filho, pai, irmão, amigo ou marido recomendar para você um carro de mulher, a luta feminina perde mais um round. A motivação para um conselho do gênero é a mesma que, mais cedo ou mais tarde, acabará justificando um salário mais baixo para uma mulher solteira, por exemplo. Afinal, ela precisaria ganhar apenas o suficiente para manter sua vidinha, comprar suas roupinhas e, adivinhe só, o seu carrinho. E o apartamento de uma mulher sozinha, então? Tem que ser aconchegante, dizem. Por que não um bem grande de quatro quartos, só para ter o prazer de ver os três lá, vazios, prontos para serem qualquer coisa que você quiser? O problema é o custo — e isso só poderá ser resolvido se houver um bom salário por trás. Mas essa já é uma outra história: a julgar pelas estatísticas trabalhistas recentes, a realidade ainda não favorece a mulher profissionalmente quando a comparação com a remuneração do homem é inevitável.

Na longa batalha que a mulher começa a travar pela desigualdade em relação ao sexo masculino, a tão sonhada diferença não está no modelo da roupa, no tipo do carro ou no tamanho do apartamento. Felicidade mesmo será ser reconhecida como mulher, com jornadas de trabalho justas em relação às obrigações da maternidade, por exemplo, e poder comprar um carrão todo só para ela com um salário igualzinho ao do marido. E o melhor: continuar casada com ele.

BIONDO, Sonia. Mulher integral; cem flagrantes femininamente corretos sobre a nova mulher. Rio de Janeiro: Gryphus, 1999. p. 55-56 (Fragmento).



Eu vi esse texto no meu livro de Gramática por um acaso e acabei gostando. Apesar de tantas conquistas das mulheres, de tantas lutas, a realidade ainda aponta para salários desiguais em relação aos homens. Esse tipo de coisa me irrita bastante! Sou contra qualquer tipo de machismo e esse do salário ser desigual é, para mim, um dos mais absurdos.. estamos cada dia mais conquistando nosso lugar, é lindo ver uma mulher na presidência do Brasil, mas ainda assim sei que muitas desiguladades acontecem e espero que um dia essa barreira seja ultrapassada.

5 comentários:

  1. Muito bom o texto, realmente. Às vezes eu mesma falo expressões desse tipo... "Ah, era uma bom uma coisa mais delicada, mais feminina"... Né? =/

    Beijos!

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  2. Adorei o texto, e concordo com tudo. Fico fula da vida quando fazem esse tipo de coisa... Realmente ridículo, e o pior é quando MULHERES falam esse tipo de coisa, né?

    XOXO

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  3. Ótimo texto, eu adorei o que vocês escreveu e concordo plenamento.

    Eu gosto dos temas os quais você aborda aqui no seu espaço, pois além de contribuírem para o enriquecimento de nosso conhecimento, você trás também visões expressivas interessantes.

    Adorei!

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  4. Deby, mudei de url. Passei pra avisar :D

    Beijos!

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  5. hahaha adorei a história do "carro de mulher", para dizer que, na verdade, a gente tem que correr quando alguem nos recomendar uma "coisa de mulher". COncordo mt com tudo! bjão!

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